sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Luanda - Igreja de Nossa Senhora da Nazaré

Quem vem da marginal de Luanda e se dirige ao Largo do Ambiente poderá ver à sua esquerda  a discreta Igreja de Nossa Senhora da Nazaré. Construída em 1664, é a mais antiga de Luanda e, para muitos, a mais carismática. O templo era um lugar de peregrinação para os “caluenses” (gentes do mar). Monumento nacional, a igreja é conhecida pelos seus belos painéis de azulejos e pela “santa negra”, Santa Ifigénia da Etiópia.
A madre Catarina, senhora de rosto vivido, olhar alegre e sorriso aberto, afirma-nos que a veneração a Nossa Senhora da Nazaré — Mama Nasi como é conhecida entre os crentes — tem aspectos miraculosos que nunca reconheceu noutros cultos à Virgem Mãe, seja em Fátima (Portugal) ou Guadalupe (México).
Longe vão os tempos em que o templo era banhado pelas águas da baía. Hoje, totalmente em terra firme e vários metros do mar, mantém-se como um refúgio espiritual da cidade. “À Mama recorrem pessoas com e sem fé, de várias confissões religiosas. Até os maldosos chegam a visitar-nos antes de cometerem o crime”, refere a madre divertida. “Nossa Senhora da Aflição”, “Nossa Senhora da Fecundidade”, são outros nomes que os crentes adoptam conforme o problema que apresentam à virgem. “Há também os que a Ela recorrem por causa dos negócios”, diz-
-nos lembrando-se de que está a falar para a Exame Angola.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Orlando Vitorino: Pai eterno

O texto que dou a ler hoje é um testemunho emocional sobre o meu Mestre, o filósofo Orlando Vitorino.

Corre hoje o décimo aniversário sobre o falecimento de Orlando Vitorino (1922-2003), um dos mais decisivos filósofos portugueses do século passado. Com ele, convivi desde a idade da dor numa relação de cúmplice, amigo e discípulo. Das conversas iniciais, lembro as suas palavras quando nos olhámos: “vamos fazer uma revista juntos!”, disse para minha perplexidade. Mais tarde, envolvi-me na "Escola Formal", dirigida por Orlando e Afonso Botelho, e o filósofo foi presença constante e importante em todas as minhas iniciativas editoriais. O dizer de Orlando assinalou o nosso encontro, talvez porque seria parecido a um outro, de Rolão Preto que, já velho e acompanhado pelo fantasma da morte, observou-me mais ou menos o mesmo.

Com Orlando vivi intensamente o deslumbramento da inteligência, da genialidade e da luz. Um convívio, por alguns períodos diário, que marcou a idade da aprendizagem e acabou por influenciar a minha personalidade, também enquanto homem de espírito e escritor. Foi este filósofo que me introduziu na tertúlia de Álvaro Ribeiro e na Escola de Filosofia Portuguesa.

Era uma personalidade fascinante e admirava-o profundamente. Era um “Pai”, que muitos dos amigos e conhecidos pensavam ser de sangue. Neste passo, os termos “Padre” e “Pátria” emergem na evocação. Através de Orlando, amava todo o saber do mundo e, nesta livre adesão, se foi formando a minha alma. Na admiração e no entusiasmo nem me dava conta da mortalidade do homem: na verdade, a morte não era coisa para um filósofo que tudo fazia depender do logos na forma demonstrativa e, por isso, sedutor para as outras inteligências. Ficou na memória, o momento em que percebi que Orlando era um comum mortal e que também se enganava: o primeiro, em Coimbra, quando se desequilibrou numa armadilha da calçada escorregadia da velha cidade; a segunda, quando interrogou uma frase sugerida pelo filósofo e que, prestes, introduzi num texto de minha autoria. Quanto à primeira surpresa, hoje continuo a pensar que a sua alma é imortal. Todos morremos? Talvez nem todos se submetam a essa certeza, enquanto a memória e o seu excesso forem  Vida e se inteligir a verdade patente na comunicação entre espíritos e pessoas. Quanto ao segundo momento, aprendi a lição: a adesão ao que o Mestre sabe não pode nem deve obstruir a inteligência.

Orlando transmitiu-me o amor à verdade, ao espírito e à liberdade. Sempre lembrava que a sabedoria que nele radicava era a de uma tradição, sustentada na teoria da verdade de José Marinho e na doutrina do espírito de Álvaro Ribeiro. O ideal da liberdade esteve sempre presente nos seus ensinamentos. Para Orlando, como para os seus mestres, a Escola de Filosofia Portuguesa não é lugar de cultura, nem enciclopédico, mas sim onde cada um nós, através do exercício autognósico nos sabíamos ignorantes da verdade que, entretanto, já imaginávamos unívoca. A tertúlia é um sítio de ignorância e esperança. Ao jeito dos miúdos, através da ignorância espreitávamos a verdade ou, noutros termos, pela sombra que nos protegia da cegueira, caminhávamos para a luz. O método da Escola de Filosofia Portuguesa é esotérico, mas patente, radiante e luminoso. Tudo o resto são momentos que se tornarão substanciais, e talvez enganadores, se o ser não for tão só a verdade que é.
Orlando era um pensador de inteligência principial e tudo fazia depender de dedução e demonstração firmados no espírito. Os amantes do espírito assumem este aspecto: o logos é enunciado de forma tão inteligente que parece fácil, quase tanto quanto a pressa em classificá-lo de “racionalista” ao modo vulgar da cultura oficial e segundo os ditames da filosofia moderna ou triunfante. Orlando Vitorino é um místico que tem a luz da teologia e, se quisermos, da gnose cristã.

Na sua geração, foi talvez o que mais concretizou a expressão da filosofia portuguesa em diversos domínios da vida social. Teve realização política, como a campanha presidencial que realizámos em 1986, na qual propúnhamos ideias, hoje cada vez mais actuais e necessárias à felicidade dos portugueses (Orlando deixou-nos o relato desta aventura em “O processo das presidenciais 86”).

A visão dos princípios e o inteligente pensar emprestavam-lhe um carácter apolíneo, segundo uns; radical, na opinião de outros. Não obstante, a coerência, por vezes telúrica, de um sistema de noções, teses e ideias que expôs para a Escola de Filosofia Portuguesa, sempre foi sedutora. Para além da teologia cristã, as suas deduções políticas em tempos outonais da Pátria, fizeram-no percorrer caminho dos solitários. Na vida e na morte, como tem sido patente até aos nossos dias.

Para além de “Refutação da Filosofia Triunfante”, que o autor considerava uma arma, e a “Exaltação da Filosofia Derrotada”, Orlando escreveu “As Teses da Filosofia Portuguesa”, obra que, por alguma razão obscura, não é publicada. Entretanto, deixou-nos alguns escritos decisivos, como “Notas sobre a degradação do Espírito”, “A Teoria da Verdade de José Marinho”,  “A Doutrina do Espírito de Álvaro Ribeiro”, “Ensaio sobre o que é o pensamento” ou “O pensamento é o homem”. Não podemos ainda esquecer numerosos textos sobre estética. Neste domínio, surge o pseudónimo Ernesto Palma, um homem de teatro, que assinou um acervo sobre doutrina teatral, cuja importância é ainda hoje desatendida.

 

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Nótulas em defesa da Escola de Filosofia Portuguesa

Escola, em tradicional significado, é o lugar de ócio, da conversa inútil para os ditames do negócio. Advém a palavra de skholé que se refere à folga e ao descanso. A escola propicia a livre expressão do espírito, sem embargo das finalidades utilitárias, sociais ou económicas. O inútil discurso e a vadia conversa resultaram no entendimento segundo o qual escola é o lugar onde se estuda. Diríamos, o lugar onde se pensa, atendendo a que a liberdade reside no pensamento e que, afastado do negócio, o pensar deriva da verdade e tende para a verdade.

Este significado é o que mais convém à filosofia portuguesa. A tertúlia é a escola e o lugar do filosofar, longe do ócio e da cultura. Para Álvaro Ribeiro, o teorizador da filosofia portuguesa, o convívio assegura a transmissão esotérica da tradição. Segundo o filósofo, tradição é a palavra, cujos significados são desenvolvidos e transmitidos de pessoa a pessoa ou, se quisermos, de espírito a espírito. Lembramos também, José Marinho: “Não há filosofia sem ideias viventes e as ideias viventes estão nos homens viventes ou nos que, tendo passado da face do mundo, vivem ainda”.

O ambiente tertuliar é esotérico de vários modos, dos quais um dos mais decisivos é o que se associa à transmissão da palavra ou da tradição que organiza o pensar. O convívio e, não raras vezes, o simpósio, são formas escolares da arte de pensar, a filosofia.

domingo, 3 de novembro de 2013

Curto diálogo com Walmor Grade

Walmor Grade: Caro Francisco, boa noite! Acabei de ler o teu artigo Homem: "animal racional" ou "razão animada"? Como sou um simples leitor curioso (não sou escritor, jornalista ou filósofo), confesso que minha superficialidade não permitiu que captasse a essência ali contida, talvez pela linguagem mais filosófica utilizada. Não sei se estou no caminho correto, mas estarias querendo dizer que a evolução referida por Aristóteles seria no sentido da purificação (ou santificação e consequente libertação) da alma que anima o homem, único ser vivo com esta possibilidade, por causa de sua racionalidade? Imaginei ser esta a tua ideia, mesmo porque parece confirmar que tal evolução se diferenciaria dos conceitos do Espiritismo e do Darwinismo. Se eu estiver raciocinando corretamente, dirias que a incorruptibilidade dos corpos de alguns santos seria já quase uma “demonstração com argumentos da observação”, neste caso? Agradeço a compreensão e a atenção que puderes  conceder.  Grande abraço

Francisco Moraes Sarmento: Caro Walmor, agradeço o seu comentário. Primeiro uma justificação: demoro a comentar , uma característica própria que não significa desprezo pelo meu interlocutor.  O pensamento não pressa e, reconheço também, sou um discípulo preguiçoso de Hermes. Preguiçoso, mas atento.
Quanto ao que escreve: parece-me correcto e penso que estejamos em concordância no geral. O homem aperfeiçoa-se e a condição desse movimento é conhecer-se enquanto espírito. Na filosofia portuguesa, a vida é teleológica e simboliza o regresso ao paraíso. O homem, composto de corpo, alma e espírito, é um ser que evolui. O evolucionismo encerra-se na antropologia e não transgride para a cosmologia (vertendo-se num transformismo) e para a teologia (tornando-se numa espécie de antropocentrismo). A palavra é um acto de razão e só conhecemos ou tem existência o que emerge através da palavra. A racionalidade, e não a razão raciocinante, é uma tendência para a perfeição ou para utilizar a suas palavras poderá ser uma purificação ou santificação. Mas ao utilizar estas expressões apelamos, ainda que não seja nossa intenção, para uma cisão e uma separatividade que coisificada poderá obstruir à visão unívoca da verdade. Do ponto de vista antropológico, a morte é uma mudança de estado, a que a teologia dará significado.
Na citação que faço do filósofo português, penso que não estaria a focalizar-se na questão da “incorruptibilidade dos corpos de alguns santos”. Poderá ser esta incorruptibilidade uma manifestação do aperfeiçoamento da razão (ou nos seus termos, da purificação ou santificação)? Quanto a esta questão não saberei responder.
Termino, agradecendo novamente o seu comentário e esperando continuar o nosso diálogo. Um abraço. Francisco

Walmor Grade: Salvé, Francisco! Gostei muito do seu pensamento. Vc diz agora:  “A palavra é um acto de razão e só conhecemos ou tem existência o que emerge através da palavra.” E também usa o termo “visão unívoca”, que acabo de ver também numa explicação do Prof Olavo de Carvalho, ao falar sobre a linguagem humana num contexto bastante aproximado, aqui. Gostei bastante de ambas as colocações. Abraços.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

"Madalena, fragmentos de um romance": o livro como acto mágico, por Cynthia Guimarães Taveira

A pedido de Francisco Moraes Sarmento, pedido surpreendente vindo de um mundo estranhamente mudo aqui deixo algumas linhas sobre o seu romance: “Madalena, fragmentos de um romance”.

Os romances e ainda assim, mesmo que sejam apenas romances, são tentativas da escrita do destino de alguém. No entanto, acabam por fazer parte do destino do leitor.
Será o amor uma gigantesca sugestão? Serão as sugestões consistentes?

Colocarei aqui de parte a mulher como imagem desvirtuada de qualquer coisa que não seja a passividade que lhe está reservada necessária para o reflexo do Espírito Santo, equivalente, aí, às crianças, como imagem de pureza tal, que bastando a presença como testemunha/reflexo da realidade apresentada, é o suficiente para que possa fazer afirmações surpreendentes e, muitas vezes, simples, tão próximas se situam do Espírito Santo que por elas sopra e assim resolvendo dúvidas, em simples constatações, como ajuda angelical, apaziguando em consolos simples, próximos do céu, em espontaneidade pura, entrega genuína.

Os encontros levantam dúvidas, não porque o outro seja espelho nosso, mas dúvida nossa, curiosidade nossa. Bruno encontra Madalena e tenta resolver-se, ir mais fundo ao encontro de si. Para isso ficciona um destino procurando inventá-la nesse destino. É uma “anima” criada numa tentativa de fusão dos tempos. Mas Madalena está estranhamente ausente deste livro. O que temos é todo um conjunto de visões que ele tem dela e de si próprio. A voz dela não está lá. Voz verdadeira dela não se encontra. Existe apenas um destino urgentemente inventado, um beijo urgentemente criado, ilusório como as imagens do mundo. Aquilo que Bruno oferece é a sua própria ficção e tenta que ela entre na sua própria ficção. O livro como acto mágico. Do outro lado, ela na realidade, por vezes, mágica também. Nunca se encontram ele e ela. Nunca ouvimos as duas vozes neste livro. Nem fora dele. Encontram-se apenas numa espécie de espaço imaginado, numa nostalgia dolorosa feita, também ela, de imagens-desejos ilusórios. Ele é matéria verbal. Ela matéria reservada pelo tempo e seus mistérios. Ela deu-lhe a possibilidade de se re-descobrir, em parte, no que escreve, e aqui, a escrita como demanda. Ele era o Verbo criador dela. Ela o Verbo criado por ele. O beijo está fora do livro. Porque ele é quando o Verbo se torna Ser. Um beijo não é ficção. É quando já não há teoria do amor. Só amor.

(13-10-2013)
Cynthia Guimarães Taveira

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sábado, 12 de outubro de 2013

"Madalena, fragmentos de um romance" disponivel em suporte digital

"Madalena, fragmentos de um romance" de C. Bruno está disponível em suporte digital. Preço: 5 euros. Poderá adquirir a obra fazendo o pagamento por transferência bancária ou através de Paypal.

Banco: MillenniumBCP
Titular: Francisco Manuel Bruno C B Sarmento
Para transferências nacionais (NIB):      0033 0000 45358924952 05
Para transferências internacionais (IBAN):    PT50 0033 0000 4535 8924 9520 5
Deverá enviar comprovativo da transferência para o e-mail francisco_m_sarmento@hotmail.com
Após confirmação da transferência o ficheiro PDF é enviado para o remetente

Se pretender fazer o pagamento através do Paypal deverá enviar um e-mail para francisco_m_sarmento@hotmail.com

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Conversas de tertúlia - Já será tempo de conversar sobre José Marinho?

Tertúlia em Miraflores, Janeiro de 2012. Participaram no diálogo Luis Furtado (LF), João Seabra Botelho (JSB) e Francisco Moraes Sarmento (FMS).


Num inverno invulgarmente soalheiro, a tarde aprazível convida a um passeio. Alguém interrompe o silêncio:

JSB – Meu caros, terminou há dias o ano em que se completou o cinquentenário da publicação da «Teoria do Ser e da Verdade». Uma vez que as vozes institucionais já fizeram as homenagens que tinham a fazer, o Marinho está outra vez disponível para conversar connosco...

FMS – Não esteve disponível porque estava ocupado a participar nas homenagens, ou porque andava a fugir delas?
(risos)

LF – Bem, então faço a pergunta que ele nos fazia, quando chegava à tertúlia: “Temos conversa?”

FMS – Temos, sempre!... Tenho andado a ler S. Tomás de Aquino e, por estranho que pareça, fui parar a Marinho. Hoje, estou em dizer que o conceito de insubstancial substante é um conceito inspirado por Aquino. E tomando em atenção as teses de Aquino, acabei por concluir que José Marinho é    aristotélico.

LF – Em que sentido?

FMS – Bem, é a leitura de Aquino que me permite entender o insubstancial substante sem decair nas muitas leituras que, infelizmente, andam por aí, e que tentam empurrar Marinho para uma tradição céptica e nihilista.

LF – Para mim, o conceito de insubstancial substante resulta de uma equivocidade que está no próprio fundamento do pensamento humano. O acto de pensar nunca se cansa de si mesmo, porque o pensamento sempre se recria, principalmente quando tem sobre sua égide a própria mente divina. O insubstancial substante, portanto, em todos os momentos morre, e em todos os momentos renasce de si-mesmo. No renascer está precisamente a sua substancialidade, afirmada no pensamento, já que este nunca se contradiz a si-mesmo como realidade, como essência de si.
Mas eis agora a perspectiva do homem, que é a perspectiva de J. Marinho. Marinho é um homem de perplexidades, que se vê perante a alta missão do seu pensamento, que reconhece o alto grau que esse mesmo pensamento pede para a reflexão sobre si-próprio. E esse pensamento, na pureza de si-mesmo, porque está alto, porque deseja contemplar a verdade e o ser da verdade, apenas encontra como reflexo a própria natureza humana. E o que é que lhe diz a natureza humana? Diz-lhe que o infinito ser sempre se nega - nega-se em todas as substâncias criadas; mas também persiste, porque permanece sempre como poder de afirmação.

FMS – Pois o que me surpreendeu, foi a dissolução do equívoco... A expressão insubstancial substante, que aparenta ser intrinsecamente equívoca, segundo uma interpretação aristotélica de S.Tomás, deixa de o ser. Perceberá isto quem se lembrar dos argumentos de S.Tomás que conciliam a tese da eternidade do mundo e a existência de um Deus Criador.

LF- Bem, quanto a mim há, realmente, uma equivocidade! No entanto, é certo que, no insubstancial, sempre a preposição apela ao substante... O substante é o fundamento, que o pensamento continua indefinidamente a procurar, porque o pensamento não tem posssibilidade de se contrariar, mesmo na negação, pois até na negação se reconhece, quanto mais não seja como fundamento de si-mesmo.

FMS- Isso é pedagógico...

LF- Não, não é apenas isso. O ser tem de negar-se para se afirmar.

FMS – A negação não é necessária à afirmação do ser. A negação é sempre provisória...

JSB – Creio que essa seria a tese de Álvaro e, nisso, discordaram os dois Amigos. A tese de José Marinho, quanto a mim, não é essa. Em Marinho, a cisão é irrefragável! Não há humana afirmação de ser que dela, cisão, seja imaculada; o não-ser, não sendo o que é, como que assiste o que é, a ser. Eis o enigma fundamental que, segundo Marinho, move todo o filosofar.

LF – Sim, e Marinho teve a virtude de levar toda a problemática da filosofia, da filosofia em geral e não apenas portuguesa, para este tema axial. E poucos o entendem. E embora seja um autor de relevância mundial, é intraduzível; a sua escrita é inevitavelmente hermética, não suporta tradução. Há uma cisão extrema, e a cisão extrema explica necessáriamente um eleatismo de tipo metafísico. Nós temos a nossa velocidade própria de pensamento, potencialmente infinita, e viajamos dentro de nós por mundos infinitos, dentro dos quais nos sentimos concêntricos, como se fôssemos senhores mas , bem no fundo, estamos a alargar as nossas cavernas, ou seja, os nossos possíveis céus.
No contexto da Terra, alargamos os nossos horizontes. E por isso as viagens dos homens adquirem vários significados, porque o homem pode navegar infinitamente, através de vários mundos. A cisão extrema, para Marinho, é pressupor que, no fim de tudo, na grande finalização teleológica da História dos Mundos e do Ser em relação a esses Mundos, mais uma vez, perante o infinito inesgotável, o que o homem pode conceber, ou a realidade que o homem pode usufruir, é sempre separada. A cisão extrema fala-nos, e impõe-nos, autoritáriamente, que há sempre algo finito que para nós serve, mas, no fundo, que está perante o infinito inconcluido. A cisão extrema é para além dos homens e das circunstâncias que os envolvem na sua própria evolução.
Sob o ponto de vista antropológico, partindo do princípio que há um fim teleológico do homem nesta dimensão espacio-temporal, há sempre uma cisão extrema, porque Deus, como diria Pessoa, é sempre para além da ogiva, o grande ser acima de tudo, acima de todos os anseios, acima de todas as nossas especulações – e ainda bem! Sem isso, a nossa existência na Terra poderia ser programada por etapas, poderia ser mais ou menos definida e orientada, e não haveria algo, para além de tudo, perante o qual nós sentíssemos que o mistério da existência tivesse solução possível.

FMS – A autognose é concêntrica? Na autognose o homem não se conhece apenas a si mesmo... Na autognose conhecemo-nos a nós, e a todo o Mundo!!!Não há, por isso, redenção do mundo sem salvação do Homem, por muito que isso custe aos ecologistas e aos amigos dos animais da nossa praça! E, já agora, eu diria que só temos cisão na Criação... Perante a eternidade do mundo, o que é a cisão? Aliás, para mim a cisão é uma noção teológica, embora todos andem a tratá-la como se fosse uma noção antropológica.

JSB- Caro Francisco, parece-me que quererá dizer que o Mundo é perpétuo, não eterno. A eternidade, como sabe, está fora do tempo e da sucessão dos momentos, e o Mundo não o está, certamente... A tese de Aquino, creio, é a da perpetuidade. Quanto à cisão extrema, como lhe chama Marinho, ela é apresentada quase como se fosse um atributo divino; mas se Marinho não carece da inteligência que permite aos homens não limitar ou antropoformizar o Divino, ao dizer que a cisão seja em Deus, terá de dizer que essa cisão é para nós, e não para Ele; e é por ela ser para nós, que a autognose de cada um não poderá abarcar nem uma só gota do que está para além de cada um; no entanto, não haverá nenhum limite ao que a graça Divina queira dar a conhecer a cada um... Mas isso, já será sófico e misterioso, está, julgo, para lá da autognose enquanto tal...

LF- A autognose é sempre concêntrica em nós. E excêntrica em relação a Deus. É a graça que ultrapassa os Mundos e as dimensões que temos como referências relativamente ao nosso espaço e ao nosso tempo. Pensamos que o milagre não existe... Pensamos até, embora não acreditemos, que é impossível uma comunicação, mas o beneficio da graça é algo que nós recebemos para além de todo o espaço e de todo o tempo. Isto foi uma das heranças que recebi, não só das leituras de Leonardo Coimbra, com também da mestria do Álvaro Ribeiro. A gnose, repito, como algo do conhecimento que nos é dado, e que para nós serve como semente de evolução e como ascensão para a nossa possível realização interna, é algo que em nós se opera, em nós se confirma, em nós se dilata, abrangendo, por si-mesma, tudo o resto, que no fundo é a realidade, realidade essa a que chamamos mundo. Não tenhamos o receio de sermos mónadas!

FMS – Se eu fosse a ave metafisica do Sant'Ana Dionísio diria que na autognose todo o homem se sente divino.

JSB – E esses momentos, como talvez Marinho lembrasse agora, não são, na autognose, o entusiamo que caminha sempre a par e passo com o lamento de Cristo: ”Pai, Pai, porque me abandonaste”? Nenhuma monada subsiste apenas da sua harmonia interna! Mas talvez, quem sabe, essa harmonia seja já em si suficiente para fazer voar a ave metafísica...

LF-Porque é que a mónada é a configuração? Por que razão nos aparece como o ser infinito de Parménides, o ser concluso para o qual transferimos contradições, interrogações... O que interessa nas mónadas, na sua sua conclusividade que parece negar o infinito, não é a contradição do infinito. O infinito, para o ser humano é como um imenso oceano de reserva a partir do qual todas as finitudes se dispoêm nas suas múltiplas correspondências e nas suas especiais simpatias. Mundos diferentes sim, mas conclusos na sua harmonia, sabendo nós que essa harmonia faz parte dessa outra harmonia geral que é aquela que nos movimenta o espírito e que ao mesmo tempo faz com que tudo o que pensamos possa ser concebido. Verdadeiramente, não há conceitos singulares que por esta génese não sejam universais. E que por esta luz interna, fogo activo, não se torne propriedade comum universal de tudo o que é o nosso conceber. Os conceitos a priori serão sintéticos? Nós pensamos que todos os conceitos serão gerados em nós porque fazemos parte da universal geração de tudo o que é o nosso conceber. Presumo que não é nas ciências evolucionistas que está a geração de toda as coisas. Nem estas ciências tem ainda a atitude firme de receberem em seu seio aquilo que é o movimento evolucionista do mundo! Mas há no espírito humano como que um polo de referenciação que vai distinguir aquilo que é o nosso conceber. Neste caso, concebemos pelo espírito. Por isso mesmo concebemos para as ideias e isto sustenta em nós uma perspectiva abençoada e possivelmente transcendente de todos os mundos que possamos conceber.

Retirado de www.ofilosofo.com, dirigido por João Botelho