É já no próximo sábado. Espero-vos!
domingo, 23 de fevereiro de 2014
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
Texto publicado no Diário de Notícias sobre Orlando Vitorino
Orlando Vitorino
ou a filosofia como acto de liberdade
De forma mais ou menos explícita, a filosofia portuguesa
sistematizou os seus princípios, conceitos e ideias, na senda da tradição
clássica, formalizando uma visão do homem e do mundo, cuja autenticidade
assegura a sua transmissão através de sucessivas gerações de filósofos e poetas
Filosofia Triunfante e Filosofia Derrotada
Para marcar a situação cultural e a divergência entre a
filosofia moderna e a filosofia portuguesa, Orlando Vitorino designou as de
"Filosofia Triunfante” e "Filosofia Derrotada". No livro
dedicado à primeira, o filósofo enuncia o erro que constitui todo o pensamento
moderno. Desde logo, porque nega a eternidade do mundo, privando-o do seu
carácter necessário e impondo limites, onde o pensamento clássico concebia
perenidade e inviolabilidade. No mundo limitado e desnecessário, e por isso,
todo ele passível de ser explorado, a finalidade dada ao pensamento e
desenvolver técnicas domínio que o coloquem ao serviço e às mãos do homem. O
mundo e a natureza são ilusões, mera fenomenologia, para o pensamento moderno.
A última expressão da negação do mundo e da natureza, é a afirmação da
tecnologia como fundamento ôntico de toda a existência.
Os mais apressados viam na exposição desta teses clássica,
aliás pouco desenvolvida na obra do filósofo, mas de primordial importância
para compreender a original do conceito de propriedade que determina todo o seu
pensamento, a negação dos dias da criação e, portanto, de Deus criador. A
leitura de quaisquer escrituras sagradas segundo a letra e a positividade da
narrativa, acaba por obstruir a teleologia teológica e dificulta a compreensão
da heterodoxia dos filósofos segundo uma teologia que não descansa na fé. Além
do mais, a criação do mundo supõe um nada, o “não-ser” ou uma “não-existência”,
conveniente à ontologia como fundamento de todo o real que, associada à tese da
morte de Deus, afasta a natureza da verdade e abandona o homem a si próprio.
Eternidade e propriedade
Uma das ideias mais importantes de Orlando Vitorino, um dos
pensadores mais decisivos da Filosofia Portuguesa, é a de propriedade.
Brevemente explicitada na “Exaltação da Filosofia Derrotada", este
conceito firma e organiza o seu sistema filosófico. Se bem que a sua proposição
seja enunciada nos capítulos dedicados à economia e ao direito, é possível
deduzir o carácter principial desta noção de propriedade no pensamento do
filósofo.
ou a filosofia como acto de liberdade
O décimo aniversário sobre o falecimento de Orlando Vitorino
(1922-2003), um dos filósofos mais decisivos da Casa de Portugal, passa na
próxima semana. Epígono de Álvaro Ribeiro e José Marinho, é um dos propositores
da Escola de Filosofia Portuguesa, continuadora da “Renascença Portuguesa” de
Leonardo Coimbra e Teixeira de Pascoaes.
De forma mais ou menos explícita, a filosofia portuguesa
sistematizou os seus princípios, conceitos e ideias, na senda da tradição
clássica, formalizando uma visão do homem e do mundo, cuja autenticidade
assegura a sua transmissão através de sucessivas gerações de filósofos e poetas
Para a brevidade deste artigo, e se quisermos anotar algumas
ideias essenciais desta tradição, diríamos que o magistério leonardino nos
deixou um sistema a que deu o nome de Criacionismo e postulou duas premissas: a
filosofia é o órgão da liberdade o homem é um obreiro do mundo a fazer. O seu
discípulo Álvaro Ribeiro, sistematizou a tese da existência da filosofia
portuguesa, perante a adversidade geral das instituições da cultura oficial e a
concordância de poetas e filósofos, e deixou para o futuro difícil noção: o
homem é um composto de corpo, alma e espírito que resulta numa “razão
animada", contrariando o preconceituoso conceito de “anima racional”. A
filosofia é a arte de pensar e não há filosofia sem teologia são outras das
premissas de um dos mais fecundos filósofos portugueses, que Orlando intitulou
“Mestre dos que sabem”, lembrando o epíteto que Platão atribuiu a Aristóteles.
Para além do empenhamento político que implicavam estes filósofos na defesa de
causas retiradas do seu pensamento filosófico, também é comum aos dois, a
reflexão sobre as categorias aristotélicas e o pensamento categorial dos
predicados e atributos. Estes aspectos impressionam de forma definitiva e
exclusiva a tradição central da filosofia portuguesa, distinguindo na
literatura um estilo filosófico, garantido por uma lógica que é também uma
teoria do pensamento. Desde a sua intuição inicial, este estilo literário
resultou numa expressão filosófica sem cedências ao equívoco conceptual e
nocional. Não obstante a sua proposição por vezes enigmática, a contribuição de
José Marinho para a tradição da filosofia portuguesa advém seus postulados que
firmam a verdade como o que mais importa ao pensamento.
Nesta tradição, situa-se Orlando Viitorino cujo pensamento se
encontra exposto em diversas publicações, das quais ressaltam “Refutação da
Filosofia Triunfante” e “Exaltação da Filosofia Derrotada”, obras completadas
por uma terceira, por publicar, que o autor intitulou “As Teses da Filosofia
Portuguesa", e que sintetizaria um sistema de filosofia. Não obstante,
algumas das teses foram já expostas em artigos, como “A Teoria da Verdade de
José Marinho” e a “Doutrina do Espírito de Álvaro Ribeiro", publicados na
Leonardo, revista de filosofia portuguesa, nos quais enuncia a concordância
principial dos dois métodos da arte de pensar. No pensamento de Orlando
Vitorino caduca a referência, tão ao gosto dos que não acedem ao pensamento
categorial, a tese das “duas vias” da Escola Portuguesa, referindo-se uma a
Álvaro Ribeiro, outra a José Marinho. Neste autor, o magistério leonardino
realiza um movimento analógico e proporcional, qual espiral, num ideário que
Orlando designa a como um "idealismo realista” e que completa um ciclo da
filosofia clássica. Diz o filósofo que ciclo encerra todo o saber, a partir do
qual se fazem actualizações ou, em linguagem leonardina, cristalizações, ou a
sua decadência, coisificações, dessa tradição perene e original. "Não há
nenhum acréscimo substancial de saber ou ciência entre a filosofia
aristotélica, o cristianismo e a filosofia criacionista ", escreve Orlando
Vitorino.
Dada a concordância de todo o pensamento, a consideração da
eternidade do mundo é uma condição do pensamento categorial. Não obstante, o
método partir do particular para o geral, ou se quisermos, do fim para o
princípio, a arte de pensar concebe desde o infinito e o inviolável, não como
decadência ou degradação do espírito, mas como realização positiva, necessária
e transcendente da finalidade, ou se preferirmos, da Verdade. Como nos ensina a
lógica, a afirmação universal é uma condição da verdade. Os princípios
predicados permitem a dedução de atributos e, assim, participar na existência
das coisas, que até aqui, sem consciência delas próprias, apenas, só mera
virtualidade e disposição. O pensamento cateqorial, que é sempre pensamento da
verdade, e racional e necessário à realização do mundo porque atribui
existência as coisas, manifestando o que lhes é próprio. A razão, elemento
operativo, é um acordo existencial e um factor de amor e perfeição. A filosofia
portuguesa é uma religião da razão.
A confusão entre o que é determinado e o que é limitado,
aliado ao espectáculo do mundo e a sensitividade e a sentimentalidade, parecem
não garantir o que nos é dado aos sentidos mas o movimento de corrupção, se
carece do homem para se realizar, não lhe pertence. Como só se pensa o que é
estável, a dedução da irrealidade do sensível apresenta-se como verdadeira.
O mínimo pensamento que socorre toda a existência não é
compatível e com a coisificação do limite, porque então, seria suposto que esse
pensamento se esgote na plena existência. Sem fundamento lógico o limite é uma
negação e as relações perpétuas retiram-se da eternidade.
As tentativas de negar a eternidade do mundo são o primeiro
passo para a destituição do pensamento e a valorização da vontade e da acção,
como garante de todo o real, ser e existência.
Demora e Orlando Vitorino na demonstração do imenso erro das
teses da filosofia triunfante, se quisermos, da filosofia moderna, que resultam
nas diversas formas de materialismo moderno que se desenvolvem na história e na
cultura. O resultado, aliás já reconhecido pelos pensadores do desespero e do
temor, torna a vida humana insuportável e obstrui a realização da felicidade e
do bem. Entre o saber e o ignorar, destituída a verdade e a razão do acordo
amoroso e universal, o erro, aqui um intermediário ou demónio, instiga o mal no
teatro do mundo.
Esta substância, diríamos o cosmolóqica, determina toda a
existência e da sua modalidade, que não é cisão, nem separação, resulta o
género de relação que o homem tem com o mundo. A propriedade é a forma da
existência, mas precede-a na virtualidade e potencialidade. E, como toda a
forma, e perfeita e um advento da verdade. A propriedade é o que é próprio das
coisas. Se num aspecto, nelas radica e delas não se separa; noutro, carece da
participação do homem para se realizar, na medida em que as coisas não têm
consciência ou o saber de si. Nas palavras do filósofo, as "para que se
saibam e depois se afirmem e manifestem no que lhes é próprio, na sua
propriedade”. A liberdade, que é a posição dos fins, faz manifestar a
finalidade das coisas que, até aqui, permaneciam inertes, "uma simples
presença. O homem, a razão humana ou actos de razão (as palavras), é um momento
do ser que transita para a existência e revela a sua propriedade. A sua
necessidade advém do mundo e não de Deus, que na sua omnipotência o poder a
dispensar, não informando o mundo.
Diz Orlando, que o homem "conhece assim que a existência
de cada coisa envolve toda a sua indivisível unidade, conhece que, manifestada
essa existência, a coisa se torna inalienável, conhece enfim que, estabelecida
a relação, ela não é instantânea e destruidora, mas tem de ser perpétua. Por
analogia, aos atributos que define para a propriedade – indivisível, inalienável
e perpetua -, Orlando faz corresponder três modos para a substancia que se
realizam em graus diferentes: absoluta, a perfeita e a imperfeita: o primeiro,
tem a sua imagem no corpo do homem, identifica ser e existir, é o arquétipo das
outras duas formas de propriedade e identifica-se com a liberdade: o segundo,
refere-se às coisas naturais; a terceira, às coisas industriais, ou que são
produzidas pela máquina.
Esta concepção não se garante se for abandonada a
consideração segundo a qual o mundo e eterno. Prestes, se da precedência e
realidade ao “não-ser”, algo que não pode ser pensado porque não tem
propriedade. Por outro lado, as coisas são para serem e existirem, pelo que
esse "não-ser” e efémero e provisório e concebe a criação do homem como livre
arbitrio de Deus ou o acaso das forças cósmicas. No lance, aduzimos que para
este autor o mal também é efémero e, acrescentamos, um equivalente
“não-ser".
O pensamento só pensa a verdade e o bem e por conseguinte,
todas as finalidades são tomadas como boas. O carácter principial do bem não se
coaduna com cisões e a equivalência dos dois termos bem e mal - contradiz a
natureza humana. O bem é um princípio, 0 mal uma determinação no mundo.
A história e a cultura revelam a ilusão e mostram o erro da
razão humana. Para a entificação do mal conoorre a carência do pensamento
cateqorial nas determinações do espírito, da verdade e da liberdade. O
Espírito, a Verdade e a Liberdade, predicados análogos aos atributos
indivisível, inalienável e perpétua., organizam o sistema filosófico de Orlando
Vitorino segundo três aspectos: as condições do pensar, a representação do
mundo e a realização dos princípios. Aquela trilogia é a teleologia que
determina a obra deste pensador, assim como o seu movimento operativo. do qual
nos deixou testemunho na economia, na política e na educação. Nesta dedução,
Orlando Vitorino seguiu o preceito de Leonardo, segundo o qual a filosofia e o
órgão de liberdade, elemento do espírito que a razão assegura e revela.
Repto às novas gerações
O pensamento de Orlando Vitorino promove a esperança. A
síntese operativa que faz ao nível da educação, da economia e do direito
realiza e introduz a liberdade no convívio entre os homens. Às gerações
futuras, Orlando Vitorino esclareceu as tendências modernas e enunciou as
condições do pensamento filosófico. As suas noções desenvolvem um ideário que
possibilita e situa a visão da felicidade para a condição actual do homem.
Efectivamente, vivem-se hoje acontecimentos que assinalam o transito para uma
nova Era e um novo estilo de vida, à semelhança da “revolução industrial”. Este
transito necessita de uma visão orientadora, ou se preferirmos, de um
pensamento categorial para que sejam dados aos instrumentos, nomeadamente a
técnica e a tecnologia finalidades que não apontem para o fim do mundo, nem
tornem a vida insuportável ou espalhem a infelicidade. O desígnio da história
deu um sinal, ao fazer da Internet um instrumento de liberdade. A filosofia
portuguesa é o repto às novas gerações de filósofos e poetas. Divulgar a
tradição pode ser trabalho culturalmente meritório, mas não o operacionalizar
para os dias de hoje e não seguir o exemplo dos mestres que às causas fizeram
corresponder sistemas filosóficos e corolários sociais e políticos, é recusar
as responsabilidade espirituais para com a Pátria que vive, de há multo, um
crepúsculo outonal.
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
Luanda - Igreja de Nossa Senhora da Nazaré
Quem vem da marginal de Luanda e se dirige ao Largo do Ambiente poderá ver à sua esquerda a discreta Igreja de Nossa Senhora da Nazaré. Construída em 1664, é a mais antiga de Luanda e, para muitos, a mais carismática. O templo era um lugar de peregrinação para os “caluenses” (gentes do mar). Monumento nacional, a igreja é conhecida pelos seus belos painéis de azulejos e pela “santa negra”, Santa Ifigénia da Etiópia.
A madre Catarina, senhora de rosto vivido, olhar alegre e sorriso aberto, afirma-nos que a veneração a Nossa Senhora da Nazaré — Mama Nasi como é conhecida entre os crentes — tem aspectos miraculosos que nunca reconheceu noutros cultos à Virgem Mãe, seja em Fátima (Portugal) ou Guadalupe (México).
Longe vão os tempos em que o templo era banhado pelas águas da baía. Hoje, totalmente em terra firme e vários metros do mar, mantém-se como um refúgio espiritual da cidade. “À Mama recorrem pessoas com e sem fé, de várias confissões religiosas. Até os maldosos chegam a visitar-nos antes de cometerem o crime”, refere a madre divertida. “Nossa Senhora da Aflição”, “Nossa Senhora da Fecundidade”, são outros nomes que os crentes adoptam conforme o problema que apresentam à virgem. “Há também os que a Ela recorrem por causa dos negócios”, diz- -nos lembrando-se de que está a falar para a Exame Angola.
A madre Catarina, senhora de rosto vivido, olhar alegre e sorriso aberto, afirma-nos que a veneração a Nossa Senhora da Nazaré — Mama Nasi como é conhecida entre os crentes — tem aspectos miraculosos que nunca reconheceu noutros cultos à Virgem Mãe, seja em Fátima (Portugal) ou Guadalupe (México).
Longe vão os tempos em que o templo era banhado pelas águas da baía. Hoje, totalmente em terra firme e vários metros do mar, mantém-se como um refúgio espiritual da cidade. “À Mama recorrem pessoas com e sem fé, de várias confissões religiosas. Até os maldosos chegam a visitar-nos antes de cometerem o crime”, refere a madre divertida. “Nossa Senhora da Aflição”, “Nossa Senhora da Fecundidade”, são outros nomes que os crentes adoptam conforme o problema que apresentam à virgem. “Há também os que a Ela recorrem por causa dos negócios”, diz- -nos lembrando-se de que está a falar para a Exame Angola.
domingo, 15 de dezembro de 2013
Orlando Vitorino: Pai eterno
O texto que dou a ler hoje é um testemunho emocional sobre o meu Mestre, o filósofo Orlando Vitorino.
Corre hoje o décimo aniversário sobre o falecimento de Orlando Vitorino (1922-2003), um dos mais decisivos filósofos portugueses do século passado. Com ele, convivi desde a idade da dor numa relação de cúmplice, amigo e discípulo. Das conversas iniciais, lembro as suas palavras quando nos olhámos: “vamos fazer uma revista juntos!”, disse para minha perplexidade. Mais tarde, envolvi-me na "Escola Formal", dirigida por Orlando e Afonso Botelho, e o filósofo foi presença constante e importante em todas as minhas iniciativas editoriais. O dizer de Orlando assinalou o nosso encontro, talvez porque seria parecido a um outro, de Rolão Preto que, já velho e acompanhado pelo fantasma da morte, observou-me mais ou menos o mesmo.
Com Orlando vivi intensamente o deslumbramento da inteligência, da genialidade e da luz. Um convívio, por alguns períodos diário, que marcou a idade da aprendizagem e acabou por influenciar a minha personalidade, também enquanto homem de espírito e escritor. Foi este filósofo que me introduziu na tertúlia de Álvaro Ribeiro e na Escola de Filosofia Portuguesa.
Era uma personalidade fascinante e admirava-o profundamente. Era um “Pai”, que muitos dos amigos e conhecidos pensavam ser de sangue. Neste passo, os termos “Padre” e “Pátria” emergem na evocação. Através de Orlando, amava todo o saber do mundo e, nesta livre adesão, se foi formando a minha alma. Na admiração e no entusiasmo nem me dava conta da mortalidade do homem: na verdade, a morte não era coisa para um filósofo que tudo fazia depender do logos na forma demonstrativa e, por isso, sedutor para as outras inteligências. Ficou na memória, o momento em que percebi que Orlando era um comum mortal e que também se enganava: o primeiro, em Coimbra, quando se desequilibrou numa armadilha da calçada escorregadia da velha cidade; a segunda, quando interrogou uma frase sugerida pelo filósofo e que, prestes, introduzi num texto de minha autoria. Quanto à primeira surpresa, hoje continuo a pensar que a sua alma é imortal. Todos morremos? Talvez nem todos se submetam a essa certeza, enquanto a memória e o seu excesso forem Vida e se inteligir a verdade patente na comunicação entre espíritos e pessoas. Quanto ao segundo momento, aprendi a lição: a adesão ao que o Mestre sabe não pode nem deve obstruir a inteligência.
Orlando transmitiu-me o amor à verdade, ao espírito e à liberdade. Sempre lembrava que a sabedoria que nele radicava era a de uma tradição, sustentada na teoria da verdade de José Marinho e na doutrina do espírito de Álvaro Ribeiro. O ideal da liberdade esteve sempre presente nos seus ensinamentos. Para Orlando, como para os seus mestres, a Escola de Filosofia Portuguesa não é lugar de cultura, nem enciclopédico, mas sim onde cada um nós, através do exercício autognósico nos sabíamos ignorantes da verdade que, entretanto, já imaginávamos unívoca. A tertúlia é um sítio de ignorância e esperança. Ao jeito dos miúdos, através da ignorância espreitávamos a verdade ou, noutros termos, pela sombra que nos protegia da cegueira, caminhávamos para a luz. O método da Escola de Filosofia Portuguesa é esotérico, mas patente, radiante e luminoso. Tudo o resto são momentos que se tornarão substanciais, e talvez enganadores, se o ser não for tão só a verdade que é.
Orlando era um pensador de inteligência principial e tudo fazia depender de dedução e demonstração firmados no espírito. Os amantes do espírito assumem este aspecto: o logos é enunciado de forma tão inteligente que parece fácil, quase tanto quanto a pressa em classificá-lo de “racionalista” ao modo vulgar da cultura oficial e segundo os ditames da filosofia moderna ou triunfante. Orlando Vitorino é um místico que tem a luz da teologia e, se quisermos, da gnose cristã.
Na sua geração, foi talvez o que mais concretizou a expressão da filosofia portuguesa em diversos domínios da vida social. Teve realização política, como a campanha presidencial que realizámos em 1986, na qual propúnhamos ideias, hoje cada vez mais actuais e necessárias à felicidade dos portugueses (Orlando deixou-nos o relato desta aventura em “O processo das presidenciais 86”).
A visão dos princípios e o inteligente pensar emprestavam-lhe um carácter apolíneo, segundo uns; radical, na opinião de outros. Não obstante, a coerência, por vezes telúrica, de um sistema de noções, teses e ideias que expôs para a Escola de Filosofia Portuguesa, sempre foi sedutora. Para além da teologia cristã, as suas deduções políticas em tempos outonais da Pátria, fizeram-no percorrer caminho dos solitários. Na vida e na morte, como tem sido patente até aos nossos dias.
Para além de “Refutação da Filosofia Triunfante”, que o autor considerava uma arma, e a “Exaltação da Filosofia Derrotada”, Orlando escreveu “As Teses da Filosofia Portuguesa”, obra que, por alguma razão obscura, não é publicada. Entretanto, deixou-nos alguns escritos decisivos, como “Notas sobre a degradação do Espírito”, “A Teoria da Verdade de José Marinho”, “A Doutrina do Espírito de Álvaro Ribeiro”, “Ensaio sobre o que é o pensamento” ou “O pensamento é o homem”. Não podemos ainda esquecer numerosos textos sobre estética. Neste domínio, surge o pseudónimo Ernesto Palma, um homem de teatro, que assinou um acervo sobre doutrina teatral, cuja importância é ainda hoje desatendida.
terça-feira, 5 de novembro de 2013
Nótulas em defesa da Escola de Filosofia Portuguesa
Escola, em
tradicional significado, é o lugar de ócio, da conversa inútil para os ditames
do negócio. Advém a palavra de skholé
que se refere à folga e ao descanso. A escola propicia a livre expressão do
espírito, sem embargo das finalidades utilitárias, sociais ou económicas. O inútil
discurso e a vadia conversa resultaram no entendimento segundo o qual escola é
o lugar onde se estuda. Diríamos, o lugar onde se pensa, atendendo a que a
liberdade reside no pensamento e que, afastado do negócio, o pensar deriva da
verdade e tende para a verdade.
Este significado é o que mais convém à filosofia portuguesa. A tertúlia é a escola e o lugar do filosofar, longe do ócio e da cultura. Para Álvaro Ribeiro, o teorizador da filosofia portuguesa, o convívio assegura a transmissão esotérica da tradição. Segundo o filósofo, tradição é a palavra, cujos significados são desenvolvidos e transmitidos de pessoa a pessoa ou, se quisermos, de espírito a espírito. Lembramos também, José Marinho: “Não há filosofia sem ideias viventes e as ideias viventes estão nos homens viventes ou nos que, tendo passado da face do mundo, vivem ainda”.
O ambiente tertuliar é esotérico de vários modos, dos quais um dos mais decisivos é o que se associa à transmissão da palavra ou da tradição que organiza o pensar. O convívio e, não raras vezes, o simpósio, são formas escolares da arte de pensar, a filosofia.
Este significado é o que mais convém à filosofia portuguesa. A tertúlia é a escola e o lugar do filosofar, longe do ócio e da cultura. Para Álvaro Ribeiro, o teorizador da filosofia portuguesa, o convívio assegura a transmissão esotérica da tradição. Segundo o filósofo, tradição é a palavra, cujos significados são desenvolvidos e transmitidos de pessoa a pessoa ou, se quisermos, de espírito a espírito. Lembramos também, José Marinho: “Não há filosofia sem ideias viventes e as ideias viventes estão nos homens viventes ou nos que, tendo passado da face do mundo, vivem ainda”.
O ambiente tertuliar é esotérico de vários modos, dos quais um dos mais decisivos é o que se associa à transmissão da palavra ou da tradição que organiza o pensar. O convívio e, não raras vezes, o simpósio, são formas escolares da arte de pensar, a filosofia.
domingo, 3 de novembro de 2013
Curto diálogo com Walmor Grade
Walmor Grade: Caro Francisco, boa noite!
Acabei de ler o teu artigo Homem: "animal racional" ou "razão animada"? Como sou um simples leitor curioso (não sou escritor, jornalista
ou filósofo), confesso que minha superficialidade não permitiu que captasse a
essência ali contida, talvez pela linguagem mais filosófica utilizada. Não sei
se estou no caminho correto, mas estarias querendo dizer que a evolução
referida por Aristóteles seria no sentido da purificação (ou santificação e
consequente libertação) da alma que anima o homem, único ser vivo com esta
possibilidade, por causa de sua racionalidade? Imaginei ser esta a tua ideia,
mesmo porque parece confirmar que tal evolução se diferenciaria dos conceitos
do Espiritismo e do Darwinismo. Se eu estiver raciocinando corretamente, dirias
que a incorruptibilidade dos corpos de alguns santos seria já quase uma “demonstração
com argumentos da observação”, neste caso? Agradeço a compreensão e a atenção
que puderes conceder. Grande abraço
Na citação que faço do filósofo português, penso que não estaria a focalizar-se na questão da “incorruptibilidade dos corpos de alguns santos”. Poderá ser esta incorruptibilidade uma manifestação do aperfeiçoamento da razão (ou nos seus termos, da purificação ou santificação)? Quanto a esta questão não saberei responder.
Termino, agradecendo novamente o seu comentário e esperando continuar o nosso diálogo. Um abraço. Francisco
Walmor Grade: Salvé, Francisco! Gostei muito do seu pensamento. Vc diz agora: “A palavra é um acto de razão e só conhecemos ou tem existência o que emerge através da palavra.” E também usa o termo “visão unívoca”, que acabo de ver também numa explicação do Prof Olavo de Carvalho, ao falar sobre a linguagem humana num contexto bastante aproximado, aqui. Gostei bastante de ambas as colocações. Abraços.
Francisco
Moraes Sarmento: Caro Walmor, agradeço o seu comentário. Primeiro
uma justificação: demoro a comentar , uma característica própria que não
significa desprezo pelo meu interlocutor.
O pensamento não pressa e, reconheço também, sou um discípulo preguiçoso
de Hermes. Preguiçoso, mas atento.
Quanto ao que escreve: parece-me correcto e penso
que estejamos em concordância no geral. O homem aperfeiçoa-se e a condição
desse movimento é conhecer-se enquanto espírito. Na filosofia portuguesa, a
vida é teleológica e simboliza o regresso ao paraíso. O homem, composto de
corpo, alma e espírito, é um ser que evolui. O evolucionismo encerra-se na
antropologia e não transgride para a cosmologia (vertendo-se num
transformismo) e para a teologia (tornando-se numa espécie de
antropocentrismo). A palavra é um acto de razão e só conhecemos ou tem
existência o que emerge através da palavra. A racionalidade, e não a razão
raciocinante, é uma tendência para a perfeição ou para utilizar a suas palavras
poderá ser uma purificação ou santificação. Mas ao utilizar estas expressões
apelamos, ainda que não seja nossa intenção, para uma cisão e uma
separatividade que coisificada poderá obstruir à visão unívoca da verdade. Do
ponto de vista antropológico, a morte é uma mudança de estado, a que a teologia
dará significado.Na citação que faço do filósofo português, penso que não estaria a focalizar-se na questão da “incorruptibilidade dos corpos de alguns santos”. Poderá ser esta incorruptibilidade uma manifestação do aperfeiçoamento da razão (ou nos seus termos, da purificação ou santificação)? Quanto a esta questão não saberei responder.
Termino, agradecendo novamente o seu comentário e esperando continuar o nosso diálogo. Um abraço. Francisco
Walmor Grade: Salvé, Francisco! Gostei muito do seu pensamento. Vc diz agora: “A palavra é um acto de razão e só conhecemos ou tem existência o que emerge através da palavra.” E também usa o termo “visão unívoca”, que acabo de ver também numa explicação do Prof Olavo de Carvalho, ao falar sobre a linguagem humana num contexto bastante aproximado, aqui. Gostei bastante de ambas as colocações. Abraços.
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segunda-feira, 21 de outubro de 2013
"Madalena, fragmentos de um romance": o livro como acto mágico, por Cynthia Guimarães Taveira
A pedido de Francisco Moraes Sarmento, pedido surpreendente vindo de um mundo estranhamente mudo aqui deixo algumas linhas sobre o seu romance: “Madalena, fragmentos de um romance”.
Os romances e ainda assim, mesmo que sejam apenas romances, são tentativas da escrita do destino de alguém. No entanto, acabam por fazer parte do destino do leitor.
Será o amor uma gigantesca sugestão? Serão as sugestões consistentes?
Colocarei aqui de parte a mulher como imagem desvirtuada de qualquer coisa que não seja a passividade que lhe está reservada necessária para o reflexo do Espírito Santo, equivalente, aí, às crianças, como imagem de pureza tal, que bastando a presença como testemunha/reflexo da realidade apresentada, é o suficiente para que possa fazer afirmações surpreendentes e, muitas vezes, simples, tão próximas se situam do Espírito Santo que por elas sopra e assim resolvendo dúvidas, em simples constatações, como ajuda angelical, apaziguando em consolos simples, próximos do céu, em espontaneidade pura, entrega genuína.
Os encontros levantam dúvidas, não porque o outro seja espelho nosso, mas dúvida nossa, curiosidade nossa. Bruno encontra Madalena e tenta resolver-se, ir mais fundo ao encontro de si. Para isso ficciona um destino procurando inventá-la nesse destino. É uma “anima” criada numa tentativa de fusão dos tempos. Mas Madalena está estranhamente ausente deste livro. O que temos é todo um conjunto de visões que ele tem dela e de si próprio. A voz dela não está lá. Voz verdadeira dela não se encontra. Existe apenas um destino urgentemente inventado, um beijo urgentemente criado, ilusório como as imagens do mundo. Aquilo que Bruno oferece é a sua própria ficção e tenta que ela entre na sua própria ficção. O livro como acto mágico. Do outro lado, ela na realidade, por vezes, mágica também. Nunca se encontram ele e ela. Nunca ouvimos as duas vozes neste livro. Nem fora dele. Encontram-se apenas numa espécie de espaço imaginado, numa nostalgia dolorosa feita, também ela, de imagens-desejos ilusórios. Ele é matéria verbal. Ela matéria reservada pelo tempo e seus mistérios. Ela deu-lhe a possibilidade de se re-descobrir, em parte, no que escreve, e aqui, a escrita como demanda. Ele era o Verbo criador dela. Ela o Verbo criado por ele. O beijo está fora do livro. Porque ele é quando o Verbo se torna Ser. Um beijo não é ficção. É quando já não há teoria do amor. Só amor.
(13-10-2013)
Cynthia Guimarães Taveira
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Os romances e ainda assim, mesmo que sejam apenas romances, são tentativas da escrita do destino de alguém. No entanto, acabam por fazer parte do destino do leitor.
Será o amor uma gigantesca sugestão? Serão as sugestões consistentes?
Colocarei aqui de parte a mulher como imagem desvirtuada de qualquer coisa que não seja a passividade que lhe está reservada necessária para o reflexo do Espírito Santo, equivalente, aí, às crianças, como imagem de pureza tal, que bastando a presença como testemunha/reflexo da realidade apresentada, é o suficiente para que possa fazer afirmações surpreendentes e, muitas vezes, simples, tão próximas se situam do Espírito Santo que por elas sopra e assim resolvendo dúvidas, em simples constatações, como ajuda angelical, apaziguando em consolos simples, próximos do céu, em espontaneidade pura, entrega genuína.
Os encontros levantam dúvidas, não porque o outro seja espelho nosso, mas dúvida nossa, curiosidade nossa. Bruno encontra Madalena e tenta resolver-se, ir mais fundo ao encontro de si. Para isso ficciona um destino procurando inventá-la nesse destino. É uma “anima” criada numa tentativa de fusão dos tempos. Mas Madalena está estranhamente ausente deste livro. O que temos é todo um conjunto de visões que ele tem dela e de si próprio. A voz dela não está lá. Voz verdadeira dela não se encontra. Existe apenas um destino urgentemente inventado, um beijo urgentemente criado, ilusório como as imagens do mundo. Aquilo que Bruno oferece é a sua própria ficção e tenta que ela entre na sua própria ficção. O livro como acto mágico. Do outro lado, ela na realidade, por vezes, mágica também. Nunca se encontram ele e ela. Nunca ouvimos as duas vozes neste livro. Nem fora dele. Encontram-se apenas numa espécie de espaço imaginado, numa nostalgia dolorosa feita, também ela, de imagens-desejos ilusórios. Ele é matéria verbal. Ela matéria reservada pelo tempo e seus mistérios. Ela deu-lhe a possibilidade de se re-descobrir, em parte, no que escreve, e aqui, a escrita como demanda. Ele era o Verbo criador dela. Ela o Verbo criado por ele. O beijo está fora do livro. Porque ele é quando o Verbo se torna Ser. Um beijo não é ficção. É quando já não há teoria do amor. Só amor.
(13-10-2013)
Cynthia Guimarães Taveira
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