A minha publicação sobre Torga e Quadros (pode ser lida aqui) suscitou uma curta nota de Eduardo Aroso que publico acompanhado pelo meu comentário.
Eduardo Aroso: Apesar de eu ter vivido sempre em Coimbra, conhecer e felizmente ser amigo do Leandro Moraes Sarmento, apenas três vezes contactei com Torga. Não importa agora o escritor enquanto pessoa, ou seja, sobre o que dizia na chamada conversa solta, importa, isso sim, (e porque aqui não há espaço para tal) salientar alguns aspectos relacionados como o texto.
É inquestionável a portugalidade (termo de António Sardinha) que atravessa toda a escrita do poeta transmontano, e – o que tende a ser esquecido ou minimizado – a descrição das relações luso-brasileiras, nomeadamente na obra "Traço de União". Sobre a retirada do mercado dessas duas obras primeiras, o não reconhecimento delas do poeta, é um facto que aconteceu com outros poetas, por exemplo, com Eugénio de Andrade. Os primeiros escritos (salvo raras excepções) são sempre o que são. É claro que Torga, como muitos outros, na época, começou por acreditar na ideia de uma Europa na qual Portugal poderia tirar a ferrugem, embora logo depois começasse a desconfiar; todavia manteve, também como muitos outros, que para se ser verdadeiro teria que se ser de esquerda, embora audaciosamente tenha escrito no "Diário" que preferia morrer a concordar com a invasão da Checoslováquia. Não sei se também com o mainstream da época comungava da ideia de que "o movimento da filosofia portuguesa" estava ligado ao Estado Novo, ideia que ainda hoje perpassa na incultura de muitos intelectuais portugueses, intelectuais esses que agora descrevem bem a catástrofe, mas que riram na década de 80, quando o filósofo Orlando Vitorino disse que Cavaco Silva (na época primeiro-ministro) não passava de um fraco contabilista! E apesar de Torga ser o escritor da nossa terra, do sangue português, até de um certo nosso benigno paganismo, da eternização do homem rural português, e porque talvez fosse essencialmente poeta e ficcionista, ele tenha escrito (obviamente com toda a legitimidade e liberdade) na obra "Portugal", que não gostava do Porto de Sampaio Bruno!
Na verdade, Miguel Torga é já um grande clássico da nossa literatura, "poeta da resistência lusíada", como disse António Quadros. E num futuro muito próximo, quando voltarmos a olhar para o território de outra maneira que não só para auto-estradas, depois de passadas certas modas e modismos, influenciados por ideologias e imprensas várias, Torga será tomado de novo como poeta da autenticidade e literariamente como a expressão do labor árduo mas profícuo do que é o espírito oficinal da escrita, em que cada palavra é submetida ao escopro da permanente e subtil atenção.
Um abraço, caro Francisco!
Francisco Moraes Sarmento: Amigo Eduardo Aroso. Agradeço o seu oportuno comentário. Os serões de Miguel Torga eram passados no sótão do nº 5 da Praceta Fernando Pessoa (casa dos meus Avós), no escritório e biblioteca do meu Tio. Tinha conhecimento de algumas obras dos escritores, poetas e filósofos de filosofia portuguesa. Estava atento ao seu patriotismo e tinha-os em boa conta. Aliás, este aspecto também pode ser testemunhado pelo seu “discípulo nocturno”, João Bigotte Chorão. Nas tertúlias, o português Miguel Torga era considerado um sábio da imensidão da nossa Terra e dos nossos bichos – nós mesmos bichos de toda a Terra, para além de “poeta da resistência lusíada”. Nós mesmos, na página “Sopro” que crei no “Diário de Coimbra” nos anos oitenta, fizemos uma homenagem à portugalidade de Torga ao fazer publicar num Dia de Portugal (não me lembro o ano) uma página completa de poesia, para espanto de muitos dos meus camaradas e penso também da direcção do jornal. Nesse dia, o “Sopro” publicava versos de Luis de Camões, Guerra Junqueiro, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Miguel Torga (o único vivo).
Apenas uma nota: o que se passava em minha casa era mais do que “conversa solta”. O meu Tio era uma espécie de “eminência parda” de Torga (aspecto que quase reconhece de forma velada num volume de “A Criação do Mundo”) e os seus livros eram revistos pela minha Tia Maria da Conceição. Se existem “padrinhos”, são eles.
A gestão de imagem que o poeta fazia, muito de acordo com os aspectos que referi no primeiro relato, acrescentava perturbações à vera angústia que cerceava a sua alma de patriota quanto ao destino português.
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segunda-feira, 30 de junho de 2014
Quadros, Torga, Eduardo Aroso e eu
A propósito de António Quadros e Miguel Torga
A casa da minha Avó Maria e do meu Avô Chico fica ao lado da
de Miguel Torga, hoje transformada em museu (Ler mais aqui). Todos os dias, o
poeta era visita certa. O "vizinho" ou "sr doutor", como
era tratado na intimidade familiar, conforme o tema, o caso e a circunstância,
batia à porta várias vezes ao dia. À noite, depois de jantar e conversar na
sala de estar, subia para sótão, onde o meu Tio, Leandro Moraes Sarmento, tinha
o seu escritório e biblioteca. Quando a Igreja de Santo António dos Olivais
anunciava a meia-noite subia também ao terceiro andar da moradia. Ali ficávamos
a conversar pela noite, entre livros e espíritos, num espaço esconso e pouco
alumiado. Predominava também o fumo e o cheiro de tabaco preto que o meu Tio
fumava a compassar o pensamento e as palavras. O Torga escolhia bastas vezes a
termo "cousa", usado em modo reflexivo, emprestando a plena conotação
telúrica de causa, talvez sem o perceber completamente, ao que dizia. "É
uma cousa..." dizia a começar a frase. No geral, ouvia o diálogo entre os
dois; por vezes, dizia o que me ia na alma. Certa vez, já depois do 25 de Abril
e quando o "país ardia", era evidente para todos nós, a quem a Pátria
mais importa, que perigava a perduração de Portugal, Torga lamentava a ausência
de norte dos políticos, dos governantes e das elites em geral. Dessa vez,
decidi fazer uma proposta mais concreta: "Então se considera que Portugal
está em maus lençóis porque não se faz um manifesto contra a situação assinado
por escritores, poetas e filósofos?". Como que aproveitando a oportunidade
advinda do silêncio surpreso, acrescentei. "Posso propor a ideia aos que
conheço em Lisboa." E mencionei António Quadros, entre outros. Para nosso
espanto, Torga atalhou incomodado: "António Quadros? Não! Sou um homem de
esquerda e ele é de direita!". E deu-se início a uma longa discussão, a
vários tons e atitudes, sobre a ideia de Pátria e se a situação de Portugal
valia o "complexo de esquerda" que o poeta evidenciava. Não era a
primeira vez que Torga subsumia a sua genialidade poética aos cânones da imagem
pública. Já de madrugada, sem deixarmos de esgrimir argumentos, fomos descendo
ao segundo andar (onde toda a família dormia), piso térreo e jardim. Na manhã
seguinte, por volta das treze, hora que o meu Avô impreterivelmente fazia
cumprir a todos para dar início ao almoço, a apreensão dos meus familiares e a
minha expressão carrancuda marcavam o momento. Afinal, todos ouviram o que se
passara durante a madrugada. A minha Tia, que tem a admiração de uma vida por
Miguel Torga, interrogou-me, ao que respondi: "Sabes, o vizinho não tem o
que todos os homens têm!", disse irritado e sem pensar. Perante a resposta
de discutível gosto, ficámos por ali. Entretanto, o meu Avô, já muito velho e
debilitado pela Doença de Parkinson, acercou-se e apoiando-se no meu braço,
questionou-me: "Sabes como se chama o primeiro livro do Vizinho?". À
minha negativa esclareceu-me: "A Rampa!". "Sabes como era
conhecido em Coimbra?", continuou. A nova negativa, respondeu: "A
Trampa! Por isso, Francisco, não te incomodes!", enquanto se afastava
vagarosamente, deixando-me com um sorriso nos lábios. Efectivamente, o próprio
Torga tinha a noção de que se tratava de uma obra menor e não a reconhece na
sua bibliografia. Ainda estava viva na consciência do poeta a ideia segundo a
qual na acção política "a cultura é de esquerda", um preconceito que
lhe toldava, por vezes, a responsabilidade enquanto intelectual que vivia
angustiado com o destino da Pátria, um sentimento reconhecido por António
Quadros, que o considerava um "poeta da resistência lusíada" e um dos
clássicos da literatura portuguesa.
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